Sobre medo e coragem


 

A gente escreve. Escreve, óbvio, porque gosta de escrever ou porque achou para isso alguma outra motivação plausível que, no fim da contas, não importa muito qual. Há muitas formas de se produzir um texto: há quem o prepare com o cuidado preciso e trabalhoso… pensando cada frase, cada palavra, cada encaixe da frase no parágrafo; há quem intuitivamente escreva, pensando mais em sentir as palavras do que propriamente escrevê-las; há quem misture um pouco dos dois e também, quem encontre seu jeito singular de se expressar.

A produção pode parecer fácil para os leitores. Pode parecer aqueles clichês de filmes, com alguém sentado numa escrivaninha chique, com uma xícara de café de porcelana, vários rascunhos escritos, livros empilhados e um cesto de lixo cheio de bolinhas de papel das ideias que não fluíram. Esses clichês românticos no qual parece que é só se fantasiar de escritor que aparece uma boa ideia e, 250 páginas depois, um best-seller.

Escrever é um trabalho, escrever dá trabalho, mas, por sorte, a gente gosta. E ainda digo: por mais que gostemos de escrever nossas palavras, por mais que priorizemos o processo e o produto, queremos ser lidos. Ninguém escreve para se esconder. Um texto não lido é um texto que não existe pra outra pessoa. Não sei se acredito que alguém queira escrever para trancar suas palavras numa gaveta, que queira escrever para o esquecimento.

Acho que postar aquilo que se escreve é, primeiro, um ato de coragem. Por fingimento poético ou não, um texto faz parte de quem somos… Sai carregado das nossas impressões, das nossas subjetividades, mesmo que ficcionais. E, ainda, tem quem se apegue a cada palavrinha escrita, como filho, como bichinho de estimação, que quer cuidar e proteger pra não ir embora, ou pra não ter que esbarrar com quem desgoste. É preciso coragem sim. Superar o medo de não saber se é realmente bom. Superar a dúvida que muitas vezes se agarra em nós: sou realmente escritor? sou realmente poeta?. Superar o bloqueio e o outro medo: o que é que as pessoas dirão?. Vencer a si mesmo e as vozes que dizem que não.

Depois vem o medo de não ser lido. E acho que é um medo que nos acompanha por muito tempo, talvez sempre. Acredito que pior do que receber críticas negativas é receber crítica nenhuma. Não ser lido é ficar num limbo existencial de não-saber. Não saber o que nosso texto é, não saber o que o texto foi para alguém. Dependendo de onde se publique, aparecem alguns likes ou coraçõezinhos. Os likes leram o texto? Os coraçõezinhos também?

Talvez a gente passe a dar muita importância para saber o que é que nosso texto significa para outra pessoa. E a partir do momento em que alguém, um dia, responde essa nossa dúvida, ficamos com a sede de outras respostas. Os famigerados comentários. Não sei se alguém que lerá essas palavras (e eu torço para que leiam) também se importe dessa maneira, se sente que um comentário às vezes vale mais do que mil likes ou corações. Não sei se você aí também tem essa necessidade de saber o que o texto escrito é. Alguém pode pensar: mas você o escreveu, como não sabe o que ele é? E é exatamente sobre isso. Eu já sei o que minhas palavras são para mim, mas a parte mais incrível (ao menos pra mim) é saber o que ela é para outra pessoa. É uma das partes mais bonitas.

E não é porque temos tantos medos que deixaremos de escrever — ainda que alguns se percam no caminho pelas dificuldades que enfrentam–, acho que escrevemos porque gostamos acima desses poréns. Porque mesmo que encaremos o medo de não postar, não sermos lidos, não recebermos feedback, nós ainda continuamos escrevendo. E me contento em saber que essa é a parte importante e que faz todos os medos, e incertezas, e dúvidas se abrandarem o suficiente para termos coragem de ir em frente sem desistir.

Escrever é sim um ato corajoso de se enfrentar, de enfrentar os outros e de enfrentar o mundo. E pra chegar até você, leitor, um texto passa por muuuuuuuuuita coisa.

<imagem de capa: Nidhi Chanani>


Mare

Amanhã, domingo, sai mais uma letter. Se escreve lá pra receber hein: https://tinyletter.com/marealvares
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