Este post é livre para todas as idades


Desde que eu li as palavras do Gaiman de uma palestra que ele deu para a Reading Agency meu conceito sobre leitura e leitores deu outro looping. Sempre tento passar aqui essas minhas desconstruções sobre o mundo encantado da literatura, que muita gente acha perfeitinho demais. Porém, há mais coisas entre leitura, leitores, livros, escritores e a literatura do que supõe nossa vã filosofia.

Vou contar minha história com a leitura e tentar ir ilustrando tudo o que eu preciso dizer hoje. Adianto a temática sobre a liberdade. Por mais estranho que pareça, nós temos pouquíssima liberdade com nossas leituras, podendo ser reduzida à zero quando somos crianças.


A Mare era uma criancinha minúscula (altura parecidíssima com a de hoje aos 20) que vivia invejando o irmão mais velho que já sabia ler. Ele ostentava aqueles livros coloridos cheios de histórias fantásticas e eu olhava tudo com uma atenção preciosa, até porque ele não gostava de ler para mim — eu tive que esperar minha vez na alfabetização. Não foi lindo, não corri para os braços da bibliotecária do colégio e viramos melhores amigas. Na verdade, depois que eu aprendi a ler, nem me lembro de pegar livros, só lembro das atividades do colégio.

Aí, senhora minha mãe, para castigar a mim e ao meu irmão quando fazíamos merda, passou a nos obrigar a pegar livros na biblioteca. O castigo era ler. Meu irmão lia a sinopse e contava depois, eu não lembro se fazia maracutaias, mas devido ao meu histórico meio trouxa, capaz que eu lia tudo mesmo. Mas não contente com a situação, mãe passou a pedir resumos dos livros, só para garantir que os lêssemos. Melhor castigo, fica aí o aprendizado.

Eu comecei a ler mais livros. Ruth Rocha, gibis, Kelly Martoer. Eu entrava na biblioteca e não sabia bem o que deveria levar pra casa. Não entendia como funcionava, nem sabia como eu conseguiria escolher um livro, sem saber se ele é bom. Na minha concepção pequena, eu teria que ler todos para descobrir. Aliás, eu achava que a bibliotecária já tinha lidos todos os livros daquele lugar, eu achava ela o máximo (saudades tia Raimunda!).

Chegou um momento que eu não queria mais ler coisas como “Marcelo, Marmelo, Martelo”, que era de uma categoria de livros que acabavam muito rápido. Comecei ousar em páginas mais densas, livros com menos imagens. Eu ainda não sabia como escolher… As prateleiras com esses livros não eram acessíveis para os alunos (ficavam atrás do balcão, e só as bibliotecárias podiam passar — ou algum dos alunos mais velhos) e por muito tempo tia Raimunda era quem me indicava o que eu poderia ler e o que ela achava que eu ia gostar. Depois de um tempo e certa confiança adquirida eu passei a poder ver as prateleiras de perto… Já quis pegar logo uns livros com umas duzentas páginas, não porque achava que conseguiria ler, mas porque queria saber como que era ler tanto numa historinha só. Claro que não me deixavam levar esses livros. “Muito grande”, “você não vai gostar”, “não é pra sua idade”, “leva esse aqui, é menorzinho, é legal”…

Num salto temporal maluco, vamos para minha 5ª-8ª série. Não lembro muito como fiquei com a leitura nesse tempo anterior, eu realmente não me lembro muito, mas sei que lia alguma coisa vez ou outra. Creio estar lendo, antes do Segundo Segmento, contos de fadas, “Camilão, o comilão” e outros. Mas na 5ª série as coisas mudaram, tinha uma coisinha chamada: livro extra-classe. Todo bimestre tinha que ler um livrinho para fazer trabalho, prova e afins. Quem definia o livro era a professora, e eu juro que nesses 4 anos, com os 16 livros que eu li para a escola, só devo ter gostado de apenas dois. Sei até os nomes: “Coração acelerando” (que fiz um trabalho maravilhoso com minha turma, um labirinto de terror muito sinistro no auditório) e “O diário da misteriosa menina”. O resto era muito ruim mesmo.

Na sétima série eu já comecei a comprar livros, o que significava ter liberdade de chegar na livraria e escolher a capa que me agradava mais. Agora eu sabia que a maioria dos livros vinham com resenhas, o que teria me ajudado muito lá na biblioteca da escola… Bem, agora eu também podia escolher os livros mais grossos que minha mente pudesse alcançar ou minha mãe permitir. Aí tudo ficou fácil, e eu também já tinha mais idade pra ler as coisas que eu queria.


História contada, eu já posso começar a problematizar.

O grande problema com o incentivo à leitura nas escola é que ele está todo errado. A literatura infantil está toda errada também, primeiro porque são adultos quem determinam o que uma criança vai ler, o que ela vai gostar de ler. São adultos, adultos não sabem o que crianças gostam. Crianças sabem o que gostam, mas creio que ninguém lembrou de perguntar a elas.

Quando você não permite que uma criança escolha o que ela quer ler, você limita a capacidade literária dela e, de verdade, a gente não tem a menor condição de dizer o que outra pessoa vai gostar ou não de ler. As opções são enormes. Dê a escolha para a criança, ensina ela a pensar por si mesma. Deixa ela livre numa biblioteca ou livraria, ensina onde ficam as sessões, deixa que ela se perca entre as lombadas coloridas. A experiência é muito mais dinâmica e preciosa do que escolher um livro (que nem você gosta) e entregar a ela, porque você acha por algum motivo que ela vai gostar daquilo. A gente não tem que achar nada.

Por que não me deixaram pegar aqueles livros maiores na biblioteca? E daí se eu não conseguiria passar da segunda página? Qual o problema? Eu devolveria o livro e pegaria outra coisa. Mas eu queria saber! Eu queria ler uma coisa e não me deixaram porque achavam que sabiam mais sobre o que eu gostava do que eu mesma. Precisam parar de achar que criança não entende e não sabe das coisas. Elas sabem sim e elas devem ser ouvidas.

Essa eterna tentativa-e-erro com alunos traz aquela velha história de “não gosto de ler”. Vocês já pensaram que só dizem isso porque essas pessoinhas ainda não tiveram a liberdade de escolha sobre o que querem ler? 

Fora que querem forçar o consumo de literatura nacional nas escolas quando isso é incabível. No lugar do incentivo, traumatizam. E isso também encaminha o pensamento para “literatura nacional é uma merda”. Vocês querem forçar Machado de Assis sob a justificativa de que “precisam” ler, quando os alunos não querem ler nada, porque já tem certeza de que tudo o que vem do professor é chato. É melhor não ler ou ler no tempo errado, com a disposição errada e começar a generalizar?

“Livro nacional é chato”
“Machado de Assis? Nunca vou ler. Deus me livre”
“Esse livro parece bom… Ih, esse autor é nacional, quero ler isso não”

Nossa literatura já não é muito bem quista e ainda fazemos esse tipo de coisa, esse ciclo vicioso… Tenho amigos que simplesmente não leem livros nacionais. Qual é a visão que os leitores têm sobre isso? Alguém já parou para perguntar? Alguém já parou para pensar que os leitores atuais simplesmente não gostam e costumam recusar literatura nacional porque muita gente acha que só tem Consagrado no meio? Se José de Alencar, Lima Barreto, Olavo Bilac, Graciliano Ramos, Aluísio Azevedo e tantos outros são chatos, porque os leitores vão dar chance aos demais escritores brasileiros? Se os Consagrados são ruins, porque os autores à margem serão bons? As editoras também não ajudam muito, mas isso é outra história.

E aí? A culpa é do aluno? A culpa é do professor? A culpa é da pessoa que um dia disse que tinha que separar o que era livro de criança e o que não era?

Eu entendo que precisa ter classificação indicatória. Mas pensa na TV. Quando aparece “este programa não é recomendado para menores de 14 anos” o programa não vai parar se tiver um menor na sala, o aviso tá ali, mas quem quiser vai ver. Com a leitura tem que ser assim, “não é recomendado, mas você tem a liberdade de ler se quiser”. Cabe aos pais esse ensinamento. “Ah, mas eu não quero que meu filho leia algo impróprio”, então conversa com ele, explica o porquê, não diga simplesmente que “não, você não pode ler isso”.

Leitura tem que ser liberdade, se não é apenas obrigação. E qual é a graça de ler alguma coisa só porque alguém disse que você deveria ler? As indicações são sempre válidas, mas são indicações, não é o que você tem que fazer. Mas por que insistimos nessa ditadura?

Passou da hora de repensar umas coisinhas…

#BEDA24


Mare

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