De um lado vocês podem ver o lacre do Vander Lee e, do outro, eu mesma


Sabe o que eu queria agora, meu bem?
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também

Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém

Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender porque se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem, se combatem sem saber

Meu amor
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir

Minha dor
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui, pode sair
Adeus
(Onde Deus possa me ouvir — Vander Lee)


Em homenagem ao artista incrível que foi Vander Lee, hoje é dia de poesia. Por todas as vezes em que minha mãe o ouvia quando eu era criança, o que me obrigava a ouvi-lo também: ainda bem! ❤

Não que eu tenha o mesmo dom do Lee, mas vamos que vamos!

Os dois estavam bêbados

Ele terminou o quinto gole de whisky
Ela terminou o quinto capítulo
Ele cogitou uma sexta dose
Ela cogitou um sexto sentido
Os dois não queriam parar

Ele bebia desde às sete
Ela lia desde ontem
Ele comeu um aperitivo
Ela bebeu o café frio
Os dois prometeram a saideira

Ele ria com os amigos
Ela chorava com personagens
Ele pegava o próximo cigarro
Ela pegava a próxima página
Os dois se mantinham no seu vício

Os dois precisavam de mais
Os dois já estavam bêbados

Ele cheirou a folha de coca
Ela cheirou as folhas do livro
Ele riu extasiado
Ela riu por solidão
Os dois pararam um instante

Ele era surdo à música
Ela era surda ao silêncio
Ele parecia não ouvir nada
Ela parecia ouvir o mundo
Os dois estavam anestesiados

Ele foi até o balcão
Ela foi até a cozinha
Ele leu o cardápio
Ela bebeu mais café
Os dois inverteram os papéis

Os dois precisavam parar
Os dois não queriam parar

Ele pediu outra dose
Ela encontrou onde parara
Ele teve a pior ressaca
Ela teve a que esperava
Os dois foram até o fim

Os dois sequer se conheciam
Os dois sequer bebiam
Os dois sequer liam
Sequer existiam

Os dois
E fim


Caravela Portuguesa

No sabor dos teus passos, velejo
A caminho, alto mar de palavras
Ondas de choro que vem e vão
Na inconstância de estradas

Num barquinho singelo hei me perder
À deriva do vento dos teus braços
À sombra da cascata dos teus cachos
Hei despedir-me de casa

Esta noite vou, sem promessa de volta
Na caravela que no meu peito inflama
Não levo lembranças, não levo nada
Somente cantigas para noites de tormenta

Tu és meu fado, capitão, criado
O guia pelas estrelas, instruindo-me
No teu próprio mar revolto
Vultuoso, que na maré descansa

Somente nós dois,
A imensidão de lágrimas,
A solidão, que no passado chama
E a promessa incerta de terra firme

#BEDA


Nunca posto minhas poesias por aqui, então é isso
Obrigada por estarem acompanhando esse BEDA que tem tudo pra dar errado ❤
Mare

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