Escritores: de onde eles vêm? Para onde vão? Como se alimentam e pagam as contas? Sexta, no Globo Repórter.

Ninguém escreve unicamente pela satisfação de escrever. Quem assina estas linhas já uma vez disse, num soneto, que não fazia versos ambicionando das néscias turbas os aplausos fúteis; mas isso foi uma descaradíssima mentira rimada. Quem escreve, quer os aplausos fúteis das turbas néscias, e quer ainda ver pago o seu trabalho, não só em louvores, mas também em dinheiro. Escrever por escrever, é platonismo, que, como todos os platonismos, é inepto e ridículo. (BILAC, 1897)

É com essa incrível citação do espetacular Olavo Bilac que eu inicio mais um texto ácido de Mare Alvares!!!!111

Não sei se vou me posicionar sobre o assunto, porque tem muitas facetas, muitos poréns… mas quero trazer umas reflexões:

Por que diabos romantizamos nossos escritores?
Quem foi que inventou a palhaçada de que um “escritor de verdade” só pode escrever por amor à arte?
Por que o escritor X é um merda porque escreve livro best seller para cultura de massa?
Devemos priorizar qualidade ou quantidade ou alcance de público?

São muitos dos ideais reproduzidos pelo meio literário, que por sua vez, está longe de se isentar da ignorância. Ideias que muitas vezes já foram reproduzidas por mim. Só que: knowledge is power, tenho estudado a literatura, principalmente a do final do século XIX no Brasil, ainda que minha faculdade esteja em greve a gente tem que seguir nos estudos e na produção, né non? Estudar tem me feito deparar com algumas polêmicas que com as quais sempre vejo em círculos literários, principalmente pela galerinha “formadora de opinião”, que pra mim é apenas “divulgadora de opinião”, da internet.

A gente já começa meio errado porque parece que para falar de literatura basta apenas ler uns livros da moda e ter uma estante entupida de exemplares — que nem foram lidos — para se tornar um crítico-resenhista-fodão-literato. NÃO. Você é apenas um leitor, porque, adivinha só?! Literatura é uma graduação. Você estuda. Você passa quatro anos indo para a faculdade e ao contrário do que as pessoas pensam, a gente não fica lendo nada “divertido”. A gente estuda. A gente estuda para caralho (“a gente”: eu não sei se vocês sabem que eu sou graduanda em Literatura). A gente tem que encarar Süssekind, Cândido, Benjamin e mais um monte de gente estranha, que escreve difícil demais, que ninguém nunca ouviu falar —  mas que são os entendedores sinistros, os formadores/divulgadores de opinião, que tem colhões para abrir a boca e falar alguma coisa sobre literatura: porque eles estudaram.

A visão do escritor é romântica. Sempre rola um endeusamento, que a gente quer colocar o nosso autor preferido num altar e acender uma vela. Acontece da gente perder tempo imaginando qual foi a inspiração que ele teve para compor uma obra tão espetacular. E acontece, o absurdo, da gente achar que um escritor “de verdade” tem que escrever por amor, tem que fazer conteúdo, tem que abalar-sacudir-causar-lacrar a história da literatura. Essa merda é complicada. Não é apenas sobre: escreva algo bom e você será bom.

Escritor é uma profissão, como um médico, um engenheiro, um professor, um atendente comercial. As pessoas são (cuidado com o choque dessa revelação, atenção cardíacos!) remuneradas por/para escrever. Isso aí. Elas recebem uns papeizinhos coloridos com os quais podem trocar por coisas como comida, água, luz e aparelhos para escrever mais. Ser escritor nem sempre é um hobby, não sejam bobos. As pessoas vendem suas palavras para poder comprar comida japonesa e trocar de carro no final do ano, ou qualquer outra coisa supérflua (ou não) que necessitem e querem (inclusive se elas quiserem juntar uma montanha de dinheiro e atear fogo depois).

ENEM 2016 ou TESTE DE REVISTA ADOLESCENTE PARA DESCOBRIR SE VOCÊ É UM ESCRITOR DE VERDADE: Imagina que você não sabe fazer porra nenhuma na sua vida (talvez você já não faça mesmo) e um dia descobre que escreve coisas que outras pessoas leem… e um dia descobre que outras pessoas estão dispostas a te dar dinheiro para escrever as coisas que você escreve. O que você faz?

a) Não vende suas palavras, porque não é assim que funciona. Aqui é arte pela arte, porra!
b) Fica na dúvida, não quer vender, mas a grana super cairia bem.
c) Vê que é uma péssima ideia e não tem nada a ver vender sua produção.
d) Não pensa duas vezes porque você não tá afim de morrer de fome.
e) Ah, não! Você acha que morrer de fome é uma ótima tendência e tá tudo explicado porque sua Lua está em Vênus.

Primeiramente eu queria dizer que estou jogando meus rascunhos de livros e contos na tela do notebook, mas a conta bancária continua zerada, me ajudem.

Segundamente:
A idealização de que o escritor precisa ser marginal é bem: babaca. Sério, nem tenho outra palavra para descrever esse tipo de coisa. O cara para ser foda não precisa viver nos extremos de ser ou um boêmio ou morrer na sarjeta com apenas poesia e dívidas nos bolsos e uma garrafa de Catuaba nas mãos.
Juro para vocês que escritores bons podem sim viver igual a mim e você. Aliás, a grande maioria vive assim. Eles têm casa própria, carro em seus nomes e provavelmente colocam seus filhos no colégio. Sério, pode pesquisar.

Segundamente pt. 2:
Não pensem vocês que é só você escrever uma obra boa para que você assente sua bunda literata na Academia Brasileira de Letras. Tem uma porrada de escritor FODA que sequer é mencionado na história da literatura. Nomes de pessoas que venderam horrores, mas que, “poxa, que pena, esquecemos de mencionar você”, e outros nomes, que são fodas também, mas não venderam nada, e parecem ser o crème de la crème, como (atenção para o segundo choque, que hoje eu quero quebrar a internet): Machado de Assis. Ninguém comprava Machado de Assis na época das publicações. D.U.R.M.A.M.C.O.M.E.S.S.A.
Aliás, uma coisa que quase ninguém sabe é que: a literatura é muito mais sobre política do que sobre literatura. A literatura é tipo a festinha de aniversário do popular da escola que disse que não vai te convidar, porque não gosta de você.

Terceiramente:
Não pensem vocês que alguém escreve um livro pensando em guardar na gaveta com a instrução de só publicar depois que ele, precocemente, morrer. Ninguém quer reconhecimento póstumo não… Eles querem aplausos, querem ficar com tendinite de tanto autógrafo, querem entrar pra lista dos mais vendidos, querem a conta cheia. Querem fazer continuação do primeiro livro e transformar um volume único numa série de 7 volumes + prequel + livros aleatórios sobre o livro original. Eles querem livros de colorir das suas obras!

(sei que tem gente que não quer ter fama e quer escrever na boa, mas vamos focar no assunto… eu sei que fama não é tudo mimimi blablabla)

[Você que quer ser youtuber, vai mentir e dizer que não quer ser subcelebridade, influencer, ser patrocinado pela Adidas e escrever um livro sobre a incrível jornada da sua vida e ainda carregar a tocha olímpica? — Você que quer ser médico, vai dizer que não quer descobrir a cura de uma doença e ganhar um Nobel? — Vai dizer que você não quer ser um líder Illuminati e dominar o mundo? — Salário mínimo não paga as contas tudo não]

Aimeudeusdocéu, Mare! Mas precisa ter amor pela literatura! Isso é heresia!

Precisa?
(precisa também!)
Mas
Quem garante que todo mundo que se consagrou na Letras amava verdadeiramente o que fazia? Você não tem que amar para fazer algo direito, lógico que gostar do que faz ajuda MUITO, mas acontece o contrário.
Citarei Robert W. Chambers, que talvez você nunca tenha ouvido falar, mas o cara apenas revolucionou e foi um precursor da weird fiction. Chambers escrevia novelinha água com açúcar, que vendiam muito, as moças curtiam muito e compravam muito (joguem no wikipedia mesmo e vejam a listagem das obras do cara — o wiki da gringa é bem mais completo). Aí o moço, um belo dia, escreveu apenas cinco fucking contos de terror, dos quais nem gostava, de um gênero para o qual cagava e andava e adivinhem só: ele lacrou a porra toda. Depois dos contos eles voltou pras novelinhas porque dava mais dinheiro pra ele mesmo.

Mare, isso aí é exceção, não é regra.

Eu não sei. Não temos como perguntar para cada escritor se ele escreve por amor e se escreve literatura (que alguns entendedores da internet dizem que é) boa.

Mare, cala a boca que a gente não gosta de textão e se ver mais uma linha dessa bostejação vamos fechar a aba desse blog fuleiro que nem tem post frequente. Cala a boquínea e vai ver imagens de catioros.

Galera, é complicado. Estamos produzindo livros sobre qualquer coisa, mas as pessoas estão lendo. Alguns livros deveriam sentir vergonha da sua existência e se retirarem das livrarias? Sim. Sempre tem uns poréns… Temos livros sendo comercializados sem propósito nenhum, mas às vezes eu acho que o único propósito de um livro é: ser lido. Às vezes, o conteúdo quem faz é o leitor. Às vezes.

Mas é isso. Escrever é uma profissão e como qualquer outra: temos profissionais incríveis e trabalhadores merdas que não sabem o que estão fazendo. Temos incompetentes sendo valorizados e gênios sendo apagados, e não descobertos, e não tendo espaço para crescer.

É ruim ser escritor, é difícil. Eu, particularmente, não recomendo. Mas quem ama escrever vai continuar fazendo com ou sem dinheiro na conta, com ou sem estande na Bienal do Livro. Vai arrumar outra profissão e transformar literatura em hobby. Vai dar um jeito.

Enfim, a dica de hoje é: apenas parem de reproduzir um discurso babaca, vai ler um textinho teórico.


Obrigada por ter lido esse textão chato, cheio de menes, sem ter fechado a aba do blog, e principalmente por não desistir de mim mesmo enquanto eu falo merdas desnecessárias quando era apenas para eu dizer: “até mais e obrigada pelos peixes”.
Até mais e obrigada pelos peixes,
Mare

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