Sobre as sensações de se estar numa livraria. Pega um café, vem ler e se identificar…

O leitor bem sabe que o paraíso deve se parecer com uma espécie de livraria/biblioteca, então poder entrar em uma é satisfazer a alma ao ver aquela infinidade de prateleiras e estantes cheias.

A vontade é de entrar gritando e saltitando de estante à estante e olhar todas as cores e títulos vibrantes. Fontes pequenas e extravagantes, frases intrigantes e escalafobéticas. Autores que parecem ter brotado do nada e famosos consagrados. Dá vontade de gritar mil frases ao mesmo tempo:

“Meu Deus, que capa linda!”
“Já lançaram esse livro??”
“EU QUERO”
“Esse parece tãaaao legal”
“Mas esse é o autor do livro tal”
“Eu quero esse também”
“Gente, mas o daqui está muito barato!”
“Fulano me recomendou esse”
E a lista é exponencial…

Mas não é assim que funciona, essa euforia é interna.
O que acontece é que:

Você vê a vitrine da livraria e a excitação já te atinge como uma facada, esse é o seu empurrãozinho para entrar, mesmo que só para ver. A gente sabe que não é só para “ver”, mas perdoamos o pecado.
Finalmente você põe seus pés na livraria e se sente pequenininho diante do oceano de encadernações. Tem tantas cores, tanta coisa para ver. O déficit de atenção fica todo feliz, você não sabe para onde olha, para onde vai.

É preciso controlar a agitação, todas as pessoas no recinto parecem se esforçar para não ficarem loucas. É possível ver nos olhos delas que se sentem como você.

Alguém esbarra de leve no seu ombro, tão de leve que você não percebe, e só sabe disso porque ouve em seguida: “me desculpa!”

Meu Deus, quem pede desculpa hoje em dia?

“Não foi nada”

Sorrisos. Todos estão felizes demais para se importar.
E você encara a primeira estante, os lançamentos o encaram de volta, todos parecem bichinhos de estimação, com olhos carentes, pedindo para serem levados para casa. Ah, você quer levar todos, com certeza. Seus olhos se perdem em cada lombada à mostra, tem de todas as cores que você pode imaginar… As tipografias são das mais variadas, os títulos mais instigantes, é possível perder um dia inteirinho ali, em pé, sem sentir cansaço, ou fome, ou sede. Sua visão é focada, mas os ouvidos percebem uma voz sutil, educada:

“Com licença?”

Você está há meia hora no mesmo lugar, impedindo que outras pessoas vejam a estante também.

QUEM AINDA USA “COM LICENÇA”? Já acreditava ser um arcaísmo… Mas não. Frequentadores de livraria sabem bem o que dizer.

E você para e ouve o burburinho, quase silencioso demais, mas as bocas se mexem o tempo todo em sorrisos e palavras. O lugar é utópico demais para ser verdade. Livros, pessoas educadas, gente que lê o que você lê, que pode manter uma conversa digna sobre seu mundo.
Há pessoas grudadas em celulares: consultando preços, conferindo resenhas, tirando selfies. Tem fundo mais bonito que uma imensidão de livros? Acho que não.

E se você olhar lá para fora, além da vitrine, você pode perceber que a vida não se move como em uma livraria. Todos passam cabisbaixos, focados numa tela brilhante, com pressa, com infinitos problemas. Aqui dentro, o ar é fresco, e as pessoas também estão cabisbaixas: é preciso olhar para o livro se quiser levá-lo. Aqui dentro, o tempo fica guardado com o resto do mundo, ele não importa.

O que importa é dar conta de ver tudo o que você precisa antes das portas se fecharem.

E você? Como se sente em uma livraria?

 


Mare

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