Resolvi falar sobre uma questão polêmica na área literária: Será mesmo que ninguém lê? Será que quem lê “modinha” não lê nada? Ou pior ainda, será que quem lê “modinha” não é leitor?

Como primeiro fato quero deixar bastante claro que acredito SIM que existem mais leitores, e desde os últimos anos o número vem crescendo. Há muito tempo não se via tantos, que até então ficavam acuados entre a tecnologia e as obras clássicas, que não eram voltadas para o público jovem – mais contemporâneo.

Retrocedendo na história da literatura podemos ver que o principal público eram as mulheres: as donas de casa, senhoras do lar, do meio familiar ocioso… Elas viam nessa literatura, nos folhetins e romances, seu escape da pacata vida cotidiana, que, convenhamos, não tinha graça nenhuma. Logo, visando a compra e a reprodução, os autores se voltavam para elas, seu principal público alvo, principal centro de consumo de suas palavras. Ler era coisa de mulher

Também é preciso ter noção de que a infância é um conceito muito recente. Antigamente crianças eram vistas como “adultos pequenos”, por exemplo, os direitos assegurados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente é da década de 90. Se você se lembrar das aulas de história, lá na época da Revolução Industrial, pode ser que você lembre, caso tenha prestado atenção nas aulas, de que as crianças também trabalhavam para sustentar suas famílias. Eram parte da grande engrenagem do sistema capitalista e forneciam mão de obra mais do que barata para seus empregadores. Fora que, trabalhavam sem condições de salubridade, em periculosidade crescente. E acredito que essas crianças, que eram maioria, não tinham tempo para ler, quiçá eram alfabetizadas.

Logo, a visão de criança que temos hoje é muito contemporânea. Imaginamos crianças com roupas sujas, brincando de bola na lama… Brincando de casinha, jogos de tabuleiro, piques, como nas propagandas de sabão em pó. E ainda assim, essas mesmas crianças de outrora cobrem uma pequena porcentagem de leitores assíduos, porque a literatura ainda não era para elas.

Especula-se que o primeiro livro voltado ao público jovem foi o Mulherzinhas, da autora Louisa May Alcott, publicado em 1868. E ainda assim tratava da adolescência, que aliás, também é um conceito bem recente, visto como uma época “à parte” do crescimento humano.

Mas vamos pular a parte de História?

Acredito, e ao falar afirmo por mim mesma, que num passado bem recente as coisas mudaram muito no quesito leitura e leitores. Não sei quem mexeu no balanço da Força, mas houve mudanças. Drásticas.

Primeiro vieram os livros.

E talvez pais, agora letrados, já que o avanço da sociedade permitiu que a educação fosse para “todos”. Pais hipotéticos que desde cedo incentivaram seus filhos à lerem, à pegar livros na biblioteca; ou ainda, pais hipotéticos que agora são capazes de investir mais na educação dos filhos, os põe em escolas mais qualificadas e compram para eles mais livros; pais hipotéticos, que mesmo que não tivessem condições de assim serem estimulados pelos seus pais, fazem pelos filhos o futuro e as chances que gostariam de terem tido.

Com isso não estou dizendo que uma criança só terá chances de se tornar leitora caso os pais lhes apresentem esse mundo. Pelo contrário, existem crianças hipotéticas que, apesar de os pais nunca terem se esforçado para fazer com que elas lessem, caminham por si próprias para esse rumo. Afinal, não há incentivo que perdure se a criança não tiver vontade por si mesma.

A literatura também mudou, afinal ela é fruto de uma sociedade. Se a sociedade muda, a leitura e a escrita mudam com ela. Viu-se que poderiam haver outros públicos-alvos e que poderiam atingir outras faixa etárias, porque agora haviam leitores. Cada história criada era destinada então à gêneros, idades, classes diferentes. Criaram-se livros que atingiram em cheio a curiosidade dos novos jovens e os cativaram. Obras que os fazem tomar gosto por leitura, mesmo que tudo comece com poucas frases e muitas ilustrações. Até porque ninguém nasce lendo Shakespeare ou Baudelaire…

Leitura também é gradação: é preciso evoluir, é preciso consumir de várias fontes para criar seu gosto, seu estilo, suas preferências. Ninguém dorme gostando de ler Pedro Bandeira e acorda amando Nietzsche.

Mas claro que leitura é subjetiva, claro que diferentes pessoas apreciam diferentes obras, incluindo as que originalmente não eram destinadas a elas. Aliás todo leitor deve sim sair da sua zona de conforto e encarar novos gêneros, novos autores, de anos diferentes, porque só haverão de ganhar conceitualmente.

É preciso ler a literatura a qual você é contemporâneo até mesmo para entender o contexto que você vive. E por que não considerar que as “modinhas” que você vê nascer e se difundir não possa ser arte ou literatura?

Por que, afinal, o que é literatura? É somente o cânone? E se sim, por quê?

Seremos condenados a absorver uma não-literatura? Será mesmo que o que temos é de um nível tão raso que sequer deveria ser consumido?

O que será de nós leitores?
O que será de nossas obras?


Mare

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